Essa semana atendi uma empresária que tem uma loja online no ramo de saúde. Vende bastante, entende do produto dela como ninguém, atende cada cliente na loja física com um cuidado de quem explica seis, sete, oito vezes a mesma coisa sem perder a paciência. Gente boa, trabalhadora, dessas que seguram o negócio nas costas.
E no meio da conversa ela me contou uma história linda.
Um hospital entrou no site dela, sozinho, sem chamar no WhatsApp, sem pedir desconto, e comprou quase todo o estoque de um produto que estava encalhado. A maior venda do mês. Pagou no boleto e faturou no mesmo dia. Ela achou que nem ia pagar, e pagou. Foi a grata surpresa do mês.
Aí eu perguntei: e você já ligou pra pessoa que comprou?
Silêncio.
"Não, Daniel. Sinceramente, eu não faço pós-venda. Nem de cliente da loja, nem do site, nem nada."
E começou a me dar os motivos. Que o produto principal dela dá muito trabalho, que o cliente reclama, que quando ela liga só ouve queixa, que já tentou pós-venda dois dias e parou porque não tem psicológico pra aquilo. Cada motivo, olhando de perto, fazia sentido. Ela não estava sendo preguiçosa. Ela estava exausta.
Só que tinha um problema. E o problema não era a falta de vontade dela.
O buraco no fundo do balde
Eu perguntei quantos por cento dos clientes dela voltam pra comprar de novo. Ela chutou uns 10%.
Dez por cento. Ou seja: de cada dez pessoas que compram, nove somem pra sempre.
Isso é um balde furado. Não adianta você abrir a torneira no talo pra encher, se tá vazando tudo pelo fundo. Você vai correr atrás de cliente novo a vida inteira, gastando cada vez mais em anúncio, dando cada vez mais desconto, e o balde nunca enche. Porque todo negócio precisa de dois motores. O motor de trazer gente nova, que é caro e cansativo. E o motor de vender de novo pra quem já comprou uma vez, que é o mais barato, o mais lucrativo, o que sustenta a casa no longo prazo.
Ela só estava rodando com um motor. E ainda por cima o motor caro.
Quando eu falei isso, ela discordou na hora. E aí veio a frase que abriu o jogo: "É que a gente tem um perfil de cliente diferente, Daniel." Cliente mais idoso, que não olha rede social, que às vezes só deixa um telefone fixo. Pra ela, relacionamento com esse cliente não colava.
Beleza. Faz sentido pra uma parte. Mas eu não estava falando de mandar feliz aniversário em massa. Pós-venda não é isso.
Pós-venda não é ligar. É lembrar de existir.
O erro mais comum é achar que pós-venda é montar um call center pra ficar ligando pra cliente toda hora. De jeito nenhum. Pós-venda é qualquer coisa que faça o cliente lembrar de você depois que ele já comprou.
E aí eu mostrei pra ela que ela já fazia pós-venda sem saber. Quando entra uma condição especial numa meia, ela olha nas anotações quem comprou aquela meia e avisa. Pronto. Isso é relacionamento. A pessoa pagou 100 numa coisa que hoje tá 80, e você mostra pra ela: ó, apareceu uma oportunidade, talvez seja hora de repor. As coisas só aumentam, e você chega dizendo que baixou? Isso é um ato de relacionamento, não é só empurrar produto.
Tem o e-mail simples perguntando se o produto chegou bem. Tem pedir a avaliação com as estrelinhas no site, que é prova social pura, porque não é você dizendo que seu produto é bom, é quem comprou dizendo. Tem responder bem quem já te procurou. Ela mesma, sem perceber, quando um cliente volta na loja reclamando que não consegue vestir a meia, senta, ensina de novo, dá a luvinha de cortesia. Aquilo já é pós-venda. Ela só não chamava por esse nome.
O ponto é esse: ela estava olhando só pra perda. "Vou ter que trocar meia, vou ouvir reclamação, vou ter prejuízo." E não estava olhando pro ganho. Pro cliente que volta, pra avaliação que atrai o próximo, pro hospital que podia virar um relacionamento em vez de uma venda solta que nunca mais se repete.
Quanto menos você faz pós-venda, mais desconto você vai precisar dar. Porque aí a única coisa que te liga ao cliente é o preço. E preço todo mundo copia.
A conta que ninguém quer fazer
No fim, eu não convenci ela de tudo. E tá tudo bem, cada coisa a seu tempo. Mas ficou a semente plantada, e ela mesma reconheceu duas coisas que quer fazer: o e-mail de "chegou tudo certo?" e as estrelinhas de avaliação no site. Já é um começo. Já é o segundo motor dando a primeira arrancada.
Fica a lição, e ela não é só pra quem tem loja online. Serve pro açougue, pro salão, pro contador, pra qualquer um que vende. Trazer cliente novo é o caro. Vender de novo pra quem já te conhece é o barato. Se você só rega planta nova e deixa a plantação velha secar, você vai plantar a vida inteira e nunca vai colher.
O hospital comprou meu estoque inteiro e ninguém ligou pra agradecer. Que não seja o próximo.
E aí, quantos dos seus clientes voltaram esse mês? Faz a conta. Se você não sabe o número, esse já é o primeiro problema.
